28 dezembro 2012

A Saúde Suplementar em 2013

 

A chegada da United Health ao Brasil mostra que o mercado ainda é atraente, apesar das reclamações das atuais operadoras. A líder do mercado americano não se aventuraria se não tivesse projeções favoráveis no rigoroso mercado brasileiro. Mas ela adquiriu uma empresa estruturada, verticalizada e profissionalizada em termos de gestão e gestores. Desse jeito, a conta deve fechar.

Os prestadores de serviços médico-hospitalares são uma parte importante desse tal processo de cuidar das pessoas. Isolado, entretanto, ele não é eficaz. A Amil entendeu isso, bem como entendeu a importância de conjugar os custos da prestação de atendimentos ambulatoriais e hospitalares com as necessidades do paciente (que é o beneficiário adoecido). E na sua receita de crescimento incluiu a compra de carteiras de operadoras, mas expandiu a rede adquirindo também hospitais. De forma geral, contém os custos dirigindo os atendimentos à sua rede, sempre que possível. Os números permitem concluir que a receita tem resultados bons.

Autogestões e verticalização

As autogestões não têm tradição de manter rede própria, exceto ambulatorial, exceção restrita às grandes. A maioria nem tem condições de operar assim, e seria realmente temerário se cada uma resolvesse se embrenhar por esse caminho. Além de ser um negócio (sim, é um negócio, queiram ou não) com conhecimentos específicos, o risco é alto demais para um “setor de RH gerenciar.

Dessa forma, a “solução AMIL” não cabe às autogestões.

Seguradoras e verticalização

Por uma questão legal, Seguradoras não podem ter rede própria. Inicialmente trabalhando com rede referenciada, depois passando ao credenciamento, essas empresas tiveram de passar por uma fase pesada de adaptações de negócio depois que a ANS foi criada e substituiu a SUSEP na condução da saúde suplementar.

Dessa forma, às seguradoras não cabe a “solução AMIL”.

Filantropias e Medicinas de Grupo

As medicinas de grupo, modalidade em que se enquadra a AMIL, é a que tem maiores condições de equilibrar seus custos com uma rede abrangente.

Não o fará, entretanto.

Historicamente, as medicinas de grupo se formaram em função do atendimento de um hospital (ou um grupo), que resolveram ampliar sua atuação fidelizando seus clientes num plano de saúde. Campeãs de vidas antes da Lei, tiveram muita dificuldade para se adaptar, tanto que várias fecharam imediatamente, e outras vêm sendo liquidadas ao longo do tempo pela ANS. As mais estruturadas acabaram sendo alvo da AMIL, que se baseou nesse tipo de aquisição para seu crescimento vigoroso. No caso mais emblemático, está a compra da Medial Saúde, que tinha uma rede própria bem vistosa.

Ademais, quando se fala de aumentar a rede, a medicina de grupo se depara com um dilema: aliar-se a outros hospitais (dos quais parte tem relação societária com operadoras) é oferecer a garganta á guilhotina, e nesse mercado o medo do canibalismo é o monstro debaixo da cama. Cada medicina de grupo enxerga a próxima como concorrente, o que impede maiores negociações entre elas.

Ah, sim, as filantropias. Normalmente são entidades seríssimas, com belos projetos de saúde e bem estar, mas afogadas em dificuldades financeiras e mesmo dívidas. Estão mais preocupadas em sobreviver, e enquanto não saírem desse estado, não se ocuparão em resolver outros (graves) problemas, já ensinava Abraham Maslow.

Dessa forma, a “solução AMIL”, embora possível, parece improvável.

Cooperativas médicas

Dentre as cooperativas médicas, há as Unimed, sendo que muitas têm serviços próprios (hospitais, ambulatórios, pronto-atendimento, SADT). Seu grande diferencial é que, pelo intercâmbio, os beneficiários de uma Unimed podem utilizar os serviços de outras (rede própria ou credenciada), o que poderia transformá-las em candidatas naturais à “solução AMIL”.

Na prática, cada Unimed é uma. Singular, que é como se chamam mutuamente (aquelas que não associações de Unimed). Sendo mais de trezentas e cinquenta cooperativas, o grande público as enxerga com uma entidade única, o que não corresponde bem ao seu dia-a-dia. Cada qual tem seu viés administrativo, cada qual tem sua visão de custos (e preços, portanto). Além do mais, as regras de pagamento e cobrança de intercâmbio acabam eliminando o que poderia ser vantagem competitiva, pois o hospital é também um negócio, inclusive atendendo a outras operadoras de planos de saúde.

A “solução AMIL”, portanto, para ser almejada pelas cooperativas, precisaria de uma mudança de paradigma entre as Unimed que parece ser de execução bem difícil.

2013

O ano de 2013, portanto, continuará sendo parte da transição empresarial de que tanto se fala. Já se noticiou a negociação entre a Golden Cross e um grupo estrangeiro, o que deve ser a tônica para as grandes operadoras em 2013. Mas isso para as grandes.

As autogestões continuarão nos seus esforços para transformar a prevenção em resultados palpáveis, e a falta de demonstrações mais sustentáveis de retorno de investimento será o grande adversário. A pulverização das vidas dessa modalidade também deve ser problema a ser combatido, e vejo que somente uma atuação conjunta das associadas da Unidas (associação de classe da modalidade) pode solucionar essa barreira.

As seguradoras continuarão a ser os grandes alvos de reclamações de prestadores de serviço, e sua direção somente será dada após uma grade tendência surdir no mercado. Por sua atuação fortemente empresarial, têm todas as condições de enfrentar a questão da prevenção de doenças e riscos e promoção da saúde. Mas sua origem empresarial limitará as ações ao público que realmente demonstre ter custos suscetíveis a diminuição (doentes crônicos graves, casos de custos altíssimos, etc.).

As medicinas de grupo, excetuada a AMIL e uma dezena de honrosas exceções regionais, continuarão na sua luta pelo azul contábil, até que despertem interesse em grupos empresariais maiores ou até que ousem firmar parcerias com aqueles que hoje enxergam como concorrentes. A força desta modalidade estará na união, como demonstram as cooperativas. Mas paixões terão de ser debeladas antes que isso aconteça. O ano de 2013 deverá ser de calor para esta modalidade (mais as filantropias), calor para equilibrar suas contas.

As cooperativas têm demonstrado ações no sentido das melhores práticas de mercado. Várias buscaram profissionalizar suas equipes de gestão, e algumas têm experimentado uma sólida evolução. Mas o ano 2013 deve manter mais do mesmo, com a tendência de mais problemas em cooperativas com dificuldades financeiras.

A ANS deve manter suas ações regulamentadoras e regulatórias, como demonstra a Consulta Pública sobre este assunto. Ainda sem um presidente indicado pela presidente da república, não se sabe, entretanto, que rumos poderá tomar, a depender de quem assumir a agência. O fato é que a publicação de mapas na internet e a agenda em conjunto com o ministério da saúde não trazem resultados práticos eloquentes. O fato de impedir operadoras de planos de saúde de comercializarem seus planos não resolvem os problemas dos beneficiários com dificuldades, embora tragam dificuldades para as próprias operadoras. O mercado criticou muito a agência por seus dirigentes egressos do mercado, supondo que estes defenderiam interesses escusos, o que não ocorreu. Também não ocorreu o inverso. O ano de 2013 seria excelente, entretanto, se a ANS conseguisses aglutinar interesses em torno de si para viabilizar o avanço de suas medidas para a rede prestadora de serviços; se atuasse imediatamente na questão dos custos abusivos de órteses e próteses; se regulasse mais decisivamente em função de indicadores e menos em função de estruturas (ouvidorias ou processo de atendimento ao cliente?); se tornasse mais célere a adoção de medidas protetoras de beneficiários com dificuldades; se agisse no sentido de manter operadoras (e seus beneficiários), em vez de liquidações e portabilidades especiais. É, talvez um ano seja pouco…

Para encerrar, um clichê: 2013 será um ano decisivo (como foram todos até agora).

10 dezembro 2012

Autogestões–Operadoras diferenciadas

Dentre as modalidades de operadoras de planos de saúde, uma se destaca pelo caráter não comercial: a autogestão.

A operadora na modalidade Autogestão diferere, em síntese, das demais modalidades:

  • pela limitação na prestação de serviços: funcionário (ativos ou aposentados), grupos familiares, etc., da empresa (ou das empresas) responsável pela operação;
  • a ausência de lucro nos objetivos empresariais da empresa (embora não se furte a buscar resultados financeiros positivos na atuação).

(Empresas públicas que administrem diretamente seus planos de saúde não estão sujeitos à legislação da saúde suplementar.)

As autogestões têm atuação diferenciada no mercado de saúde suplementar. É mais correto dizer que os planos de saúde são um benefício oferecedo pelas patrocinadoras das autogestões, o que as coloca em posição de enxergar a operação de forma diferenciada.

Focando o bem estar do funcionário e sua família, a autogestão faz contas diferentes em relação ao mercado. Não é o valor do atendimento, mas o impacto geral no ânimo do trabalhador. Para exemplificar, conheço autogestões que não se restringem ao atendimento médico-hospitalar na sua atuação: subsidiam (ou mesmo pagam integralmente) itens como gás de cozinha, óculos, medicamentos diversos (desde que prescritos, e não somente para doenças crônicas) interal ou parcialmente, etc.

Assim, o que seria lucro reverte-se para mais benefícios.

Mesmo na atividade que parece ser o maior desafio das operadoras de planos de saúde, o da promoção da saúde e prevenção de riscos e doenças as autogestões estão um passo à frente (ou poderiam estar).

Na maioria as OPS, a dispersão dos beneficiários é tal que a aplicação de ações e atividades de prevenção e promoção tem custos que as tornam proibitivas, embora ações venham sendo empreendidas por medicinas de grupo que têm rede com uma certa abrangência. Mas os resultados práticos têm feito refluir as iniciativas dessa espécie, sempre do ponto de vista financeiro.

Autogestões têm um ponto comum aos beneficiários, que é o local de trabalho. Torna-se mais fácil empreender ações para seus beneficiários, sejam eles ativos, aposentados ou mesmo dependentes. O afluxo é mais natural, até por causa da relação que os beneficiários têm com a empresa. E, de fato, há muitas ações de relativo sucesso no Brasil envolvendo autogestões.

Apesar de suas vantagens, as autogestões têm vários problemas comuns às demais operadoras. A sinistralidade (ou custos crescentes, já que sinistralidade é um conceito nem sempre aplicável às autogestões) é um deles. Ações de regulação que são adotadas pelas operadoras comerciais também o são pelas autogestões, embora com rigor menor quando envolve diretamente atendimento ao beneficiário. Negociações com a rede prestadora, dificuldade de manutenção da rede (em função de volume de atendimentos, dispersão, práticas monopolistas de algumas áreas) são as maiores ameaças à modalidade de autogestão.

Além disso, há autogestões que enfrentam graves problemas financeiros (causados por uma confluência de fatores, mas que não podem ser ignorados), o que leva a modalidade a questionamentos por parte das próprias patrocinadoras. Um dos maiores problemas é a expertise dos profissionais das autogestões em enfrentar problemas conhecidos de mercado, já que eles são, normalmente, pessoas do departamento de recursos humanos designados para atuar em área de conhecimento diverso daquele necessário à sua atribuição inicial. Com honrosas exceções (principalmente nas grandes autogestões), de fato é uma grande dificuldade que levou ao encerramento de diversas autogestões (algumas pioneiras nesse segmento, que de operadoras passaram a ser contratantes de planos de saúde).

Adicionalmente, há entidades públicas de autogestão (sem registro na ANS, dispensadas que são) que enfrentam gravíssimas dificuldades financeiras, arrastando com elas diversos prestadores de serviços médicos hospitalares pela falta de pagamento. Tal realidade depõe contra as autogestões de fato, ciosas de seu dever de bem administrar e oferece serviços da melhor qualidade.

Tudo sopesado, minha avaliação é que a autogestão é a melhor modalidade de operação de planos de saúde. É a mais flexível, a de maior facilidade de integração com o beneficiário, e a de maior possibilidade de sucesso no desafio de reduzir custos e enfrentar o crescimento das doenças crônicas e do envelhecimento da massa. Mas é preciso que haja uma ação coordenada, planejada, orquestrada com objetivos bem definidos para garantir sua presença nesse mercado bem inóspito.

Nesse caminho, vejo dois atores que podem consolidar decisivamente a força da autogestão: A CASSI (dos funcionários do Banco do Brasil) e a Unidas (entidade de classe das autogestões). A primeira com uma rede das mais abrangentes e diversificadas. E a segunda como força orquestradora, ambas atuando em conjunto para oferecer base para que empresas de cinco, dez ou cem mil funcionários se organizem em autogestão e tenham um mínimo de rede prestadores, tecnologia e base de conhecimento para atuação. Se as cooperativas podem, por que não as autogestões?

26 novembro 2012

Capacidade de atendimento dos planos de saúde

Recente entrevista de representante de operadoras brasileiras de grande expressão trazia a afirmação de que não haveria problemas com a capacidade de atendimento da rede de prestadores de serviços da Saúde Suplementar no Brasil.

Permito-me discordar.

Numa conversa recente com um presidente de uma operadora de planos de saúde de grande porte, ele mesmo um médico, reclamava ele das dificuldades de conseguir agendamento para um atendimento de familiar na rede credenciada para uma consulta, mesmo sendo ele o presidente da operadora. Na sua avaliação, isso se deve ao momento econômico do Brasil, em que houve o crescimento da “classe média”, que vai ao médico e paga, à vista, de três a quatro vezes (no mínimo) o valor que o médico receberia por uma consulta do plano de saúde. Isso seria determinante para uma inversão na fila de atendimento, em que a prioridade passa a ser do emergente na classe de consumo.

Ainda segundo esse médico, houve uma época em que se esperava no SUS um tempo absurdamente grande. Os primeiros planos de saúde se fiaram nisso e ganharam terreno na oferta de atendimentos mais rápidos, ainda que com custos altos, mas acessíveis. O que se vê hoje é a transformação daquele cenário, onde o próprio atendimento do plano de saúde se equipara ao SUS, mas o “paciente” tem como pagar. E está criado o problema.

No período de 2003 a 2011, enquanto os planos de saúde tiveram crescimento (de 2003 a 2011) de 41,3% (segundo a ANS), a classe C experimentou crescimento de 46,3% (segundo a FGV). O aumento foi proporcional para ambos, beneficiários e planos de saúde e Classe C. O que explica, então, esse comportamento atípico de pagar pelas consultas?

Podemos somente especular, mas parece-me que a urgência de atendimento médico (não no sentido da lei, mas a pressa em descobrir uma possível doença) é uma dessas explicações. Depois, que impacto tem uma consulta a R$ 120,00 se isso oferecer maiores possibilidades de tratamento? Ainda mais se esse tratamento será coberto pelo plano de saúde, de forma integral, e a custos, aí sim, muito maiores?

Pois bem, parece que esse é um problema para as operadoras, em vez de sê-lo para os médicos. Estes estão surfando na onda da demanda e oferta, escolhendo atender àqueles que pagam mais. Ao passo que as operadoras ainda estão na raciocínio de que pagar pouco ao médico é uma boa política, preferindo fechar os olhos para os benefícios da prevenção de riscos e doenças e promoção da saúde, e da própria descoberta precoce de doenças mais graves (ou mais custosas).

Hospitais não têm essa mesma liberdade que os médicos. Seus custos ainda são inacessíveis, mesmo para a classe A e B. Assim, as consultas são particulares, e as cirurgias, tratamentos, investigações ais caras serão pelo plano de saúde.

A realidade crua é que as operadoras só vão sair desse paradigma médico-deve-ser-barato por ação direta da ANS, como no caso dos prazos máximos de atendimento (ressalvadas suas limitações) e por pressão direta dos consumidores e suas representações (Procon, ProTeste, etc.). Pois exceção feita aos planos Premium, os reembolsos de consultas feitas aos beneficiários não são muito melhores do que os valores pagos diretamente aos médicos. Quando o valor das consultas pagas de forma direta pelos consumidores começar a pesar em seu bolso, aí haverá o movimento de beneficiários, Antes disso, é pura utopia.

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Crescimento da Classe C (fonte: aqui).

01 outubro 2012

A agenda da ANS

Primeiro, foi o impedimento à comercialização de planos. Depois, veio a Consulta Pública sobre medicação domiciliar. A seguir, a Consulta Pública sobre ouvidorias. Imediatamente, a Consulta Pública sobre a negativa de autorização.

Desavisados poderão confundir a atuação da ANS com a do Procon. Aliás, no episódio do impedimento à comercialização, a comunicação foi conjunta com o Ministério da Saúde, dando a entender que tratava-se de uma orquestração maior, percepção imediatamente ampliada pela suspensão da venda de chips de operadoras telefônicas. E as operadoras punida brandiram, com certa razão, seus argumentos com relação às NIP recebidas, e que tiveram acolhida por parte da ANS.

A medicação domiciliar é uma medida já estabelecida pelo SUS, para os casos de doenças crônicas. Para operadoras de planos de saúde, nada mais lógico do que gastar alguns reais em um anti-hipertensivo e evitar uma complicação de saúde que custará muito mais. Mas a informação é essencial para que medidas como essa sejam tomadas. Com a proibição (mais corretamente: com a falta da exigência) do CID nas contas médicas e pedidos de autorização, limita-se muito a capacidade da operadora em conhecer informações sobre a saúde de seus beneficiários, mesmo que para tomar ações em seu benefício. A operadora tem de se basear em doenças auto-referidas para identificar seus crônicos. Ou, por silogismo, a partir da utilização de serviços médicos hospitalares, concluir que tal beneficiário PODE SER um provável crônico. A ironia, aqui, é que depende-se da receita médica para obtenção do benefício no SUS. Ou seja, ainda sem o CID, mas quase lá… E cabe ressaltar que a ANS está propondo o benefício como cobertura adicional, não como uma exigência de fornecimento, que mostra saber ela que a medida é cara e polêmica.

Na questão das ouvidorias, A Unimed Paulistana tem Ouvidoria. Assim como a Amil. Uma teve a comercialização de planos suspensa. A outra figura como uma das mais reclamadas do setor. Como se infere, então, que a simples presença de ouvidorias pode garantir qualidade aos beneficiários? Diferentemente de estabelecer uma estrutura contábil a ser seguida pelas operadoras, não cabe à ANS definir componentes da estrutura organizacional. Os custos envolvidos com a criação desse apêndice estrutural se somam aos já pesados encargos das operadoras, sem que haja uma mínima contrapartida de qualidade, como os exemplos citados já mostraram.

A negativa de autorização, entretanto, é um marco positivo. Tão positiva que deveria figurar dentre os procedimentos obrigatórios para TODOS os serviços essenciais. Não é raro que sejam negados procedimentos, e nem sempre por motivos injustos. Mas há ocasiões em que a autorização realmente não sai, ou demora tanto para sair que asa consequências para o beneficiário são péssimas. Saber por que seu procedimento foi negado é um direito do consumidor/beneficiário, e a medida é muitíssimo benvinda.

Mas, retrospectivamente, notamos que a agenda da ANS tem a ver com o consumidor. É bom que assim seja, e é péssimo que seja somente assim. O consumidor de planos de saúde (erroneamente chamados de “convênios”) estava sem proteção alguma, e a lei não garantia a execução de seus pressupostos. Na figura da agência reguladora, a ANS (a mais atuante das agências reguladoras, faço questão de ressaltar), muitas áreas de sombra estão sendo iluminadas para beneficiar a parte hipossuficiente, o beneficiário.

O que não se pode ignorar, nem esquecer, é que há uma estrutura voltada para a garantia desses benefícios. O cenário se compõe de Operadoras de Planos de Saúde (OPS), prestadores de serviços médico-hospitalares (PSMH) e beneficiários (com um destaque para os contratantes de planos coletivos). Quando a ANS se volta para os beneficiários, está focando somente numa das bases do tripé.

Prestadores de Serviços médico-hospitalares

A ANS não age diretamente sobre os PSMH. Mas exige, corretamente, que OPS mantenham contratos com eles em números suficientes para garantir atendimento. Como se calculam esse números? Não se sabe. Há a Consulta Pública 26, que não virou Resolução Normativa, mas que baliza cálculos do setor. Mas sua aplicação exata não garante o atendimento, infelizmente. Esta deveria ser uma preocupação da ANS:agir sobre PSMH. É notória a unimilitância, em que os médicos cooperados atendem somente à sua cooperativa ou clientes chamados particulares. A ANS agiu proibindo que a prática figurasse nos estatutos das cooperativas. O resultado? Estatutos sem a cláusula, mas médicos praticando-a. Na prática, existe a unimilitância. Isso parece não preocupar a ANS. A falta de médicos, que causa o aumento do tempo de atendimento ou o atendimento em pronto socorro (ou pronto atendimento) é uma consequência nefasta disso. Mais que a falta de ouvidoria…

A falta de hospitais é um dos grandes problemas estruturais do setor. O hospital que tem 300 leitos os tem para TODAS as OPS com quem tem contrato de credenciamento. Ou seja, quem chega primeiro se interna, os tardios esperam. Estudos de entidades de classe demonstram a escassez desses recursos, mas a atuação conjuntural parece não fazer parte das atribuições da ANS. Sem reconhecer que este problema não é exclusivo das operadoras, mas um problema do Brasil não se chegará a um debate sério para resolver esse problema. Mais hospitais, com mais recursos, essa é uma necessidade real e urgente. E não adiantará multar OPS que não consigam internar seus beneficiários em 21 dias (úteis), que o problema não se resolverá.

Custos de órtese/prótese

No meio da saúde, é famosa a questão dos custos de órteses e próteses. Variações de preço, para uma mesma peça, que chegam a 2.000%. É um enorme ofensor dos custos, e uma grande ameaça à saúde financeira das OPS. Em vez de se debruçar sobre essa questão, que tal estudarmos o fornecimento de medicamentos aos beneficiários?

Indicadores na Saúde Suplementar

Desde há muito sinto falta de indicadores na saúde suplementar. Os prazos de atendimento estabelecidos pela ANS de certa forma respondem a esse clamor. Mas ainda é muito pouco. Logo após a edição das RN que tratam dos prazos máximos de atendimento, várias operadoras afirmaram que já atendiam a esses prazos, com tempos ainda menores. Antes do estabelecimento desses prazos, foi feita uma pesquisa com algumas operadoras, mas com números jamais revelados. Eu, como beneficiário, gostaria de saber quem são os mais rápidos a autorizar uma cirurgia eletiva, por exemplo. Assim como gostaria de saber quem são as OPS que têm maior relação de médicos por beneficiário, as que tem maior índice de negativas, as que… enfim, gostaria de saber de indicadores. É preciso que haja uma base de comparação para que o beneficiário escolha uma OPS, ou para que estas estabeleçam processos de melhoria em função de benchmarking de mercado. Tal não é, entretanto, o entendimento da ANS.

Conclusão

A ANS é, de longe, a agência reguladora mais atuante do Brasil. Sua atuação tem se pautado, entretanto, visando o bem exclusivo dos beneficiários e, subsidiariamente, dos PSMH (como demonstram as exigências de contratualização, o Programa Olho Vivo, etc.). O setor, entretanto, precisa de garantias de equilíbrio. A judicialização da assistência médica é outro fator que vem pesando nas contas das OPS. Sem pensar na Saúde Suplementar como um todo conectado e interdependente (a típica relação da Teoria Geral dos Sistemas), corre-se o risco de imputar a um dos atores uma carga desnecessariamente onerosa, arriscando-se mesmo levar esse ator à exaustão. E, nas ações da ANS, esse tipo de abordagem nunca foi o padrão. Os beneficiários devem se sentir amparados pelas ações “proconianas” da ANS. Aqueles que analisam atividades e números do setor, entretanto, têm motivos para temer uma forte crise no setor, em alguns anos, se o equilíbrio não se restabelecer. E, gerada a crise, quem mais vai sofrer é o beneficiário, hoje o suposto objeto das ações.

A ver.

25 agosto 2012

ANVISA, os remédios de faixa vermelha e os prazos de atendimento

Recentemente foi divulgada a informação de que a ANVISA quer exigir receita médica para os remédios de faixa vermelha.

Ao mesmo tempo, a ANS está punindo operadoras por desrespeitarem o prazo máximo de atendimento aos beneficiários em procedimentos na rede credenciada.

A relação entre os dois fatos é que a ANVISA pode, com essa resolução, piorar o prazo de atendimento e infernizar ainda mais a vida das operadoras de planos de saúde (OPS).

Se para suas consultas decorrentes de queixas de saúde o beneficiário de planos de saúde já enfrenta uma dificuldade enorme, em especial para consultas, caso tenha de solicitar receita ao médico para comprar, por exemplo, o anticoncepcional, haverá a potencialização do problema. Além dos anticoncepcionais, há outros remédios de uso frequente que serão atingidos pela nova norma: alguns anti-inflamatórios, remédios para doenças crônicas, etc.

Não se pretende aqui estilar o consumo indiscriminado de remédios. Mas, como registrou Guilherme Hummel, com o brilhantismo usual, automedicação é diferente de autoprescrição. Se o médico recomendou o consumo de determinado medicamento para certas situações, há a prescrição e há a incidências dessas certas situações. O que pode impedir o paciente/beneficiário de utilizar a mesma medicação sem a receita? O caso do anticoncepcional é emblemático. Também o é o uso de hipertensivos.

Caso seja mantida, a fila nos pronto-atendimento deve aumentar. Pessoas passarão horas nas filas de atendimento para obter receitas de remédios já em uso normal e sem complicações.

Guilherme Hummel lembra também que, nessa fase em que governos, órgãos e entidades de saúde conclamam o indivíduo a se responsabilizar pela sua saúde, não podemos tirar dele essa responsabilidade de consumo consciente da medicação. Tutelá-lo implica em reconhecimento de sua incapacidade de ser responsável pela sua saúde. E, mais uma vez, o amarramos à grande teia de dependência dos prestadores de serviços médicos hospitalares, que não é exatamente abundante no Brasil.

Se realmente for adotada, a regra terá impactos negativos em toda a cadeia de saúde, Acredito até mesmo que os próprios médicos, já assoberbados e com agenda lotadas, se ressentiram de atenderem paciente para renovação de receita. Ou, pelo jeitinho brasileiro, o paciente sai da primeira consulta com um bloco de receituário já preenchido.

Muita saúva e pouca saúde, os males do Brasil são.