26 novembro 2012

Capacidade de atendimento dos planos de saúde

Recente entrevista de representante de operadoras brasileiras de grande expressão trazia a afirmação de que não haveria problemas com a capacidade de atendimento da rede de prestadores de serviços da Saúde Suplementar no Brasil.

Permito-me discordar.

Numa conversa recente com um presidente de uma operadora de planos de saúde de grande porte, ele mesmo um médico, reclamava ele das dificuldades de conseguir agendamento para um atendimento de familiar na rede credenciada para uma consulta, mesmo sendo ele o presidente da operadora. Na sua avaliação, isso se deve ao momento econômico do Brasil, em que houve o crescimento da “classe média”, que vai ao médico e paga, à vista, de três a quatro vezes (no mínimo) o valor que o médico receberia por uma consulta do plano de saúde. Isso seria determinante para uma inversão na fila de atendimento, em que a prioridade passa a ser do emergente na classe de consumo.

Ainda segundo esse médico, houve uma época em que se esperava no SUS um tempo absurdamente grande. Os primeiros planos de saúde se fiaram nisso e ganharam terreno na oferta de atendimentos mais rápidos, ainda que com custos altos, mas acessíveis. O que se vê hoje é a transformação daquele cenário, onde o próprio atendimento do plano de saúde se equipara ao SUS, mas o “paciente” tem como pagar. E está criado o problema.

No período de 2003 a 2011, enquanto os planos de saúde tiveram crescimento (de 2003 a 2011) de 41,3% (segundo a ANS), a classe C experimentou crescimento de 46,3% (segundo a FGV). O aumento foi proporcional para ambos, beneficiários e planos de saúde e Classe C. O que explica, então, esse comportamento atípico de pagar pelas consultas?

Podemos somente especular, mas parece-me que a urgência de atendimento médico (não no sentido da lei, mas a pressa em descobrir uma possível doença) é uma dessas explicações. Depois, que impacto tem uma consulta a R$ 120,00 se isso oferecer maiores possibilidades de tratamento? Ainda mais se esse tratamento será coberto pelo plano de saúde, de forma integral, e a custos, aí sim, muito maiores?

Pois bem, parece que esse é um problema para as operadoras, em vez de sê-lo para os médicos. Estes estão surfando na onda da demanda e oferta, escolhendo atender àqueles que pagam mais. Ao passo que as operadoras ainda estão na raciocínio de que pagar pouco ao médico é uma boa política, preferindo fechar os olhos para os benefícios da prevenção de riscos e doenças e promoção da saúde, e da própria descoberta precoce de doenças mais graves (ou mais custosas).

Hospitais não têm essa mesma liberdade que os médicos. Seus custos ainda são inacessíveis, mesmo para a classe A e B. Assim, as consultas são particulares, e as cirurgias, tratamentos, investigações ais caras serão pelo plano de saúde.

A realidade crua é que as operadoras só vão sair desse paradigma médico-deve-ser-barato por ação direta da ANS, como no caso dos prazos máximos de atendimento (ressalvadas suas limitações) e por pressão direta dos consumidores e suas representações (Procon, ProTeste, etc.). Pois exceção feita aos planos Premium, os reembolsos de consultas feitas aos beneficiários não são muito melhores do que os valores pagos diretamente aos médicos. Quando o valor das consultas pagas de forma direta pelos consumidores começar a pesar em seu bolso, aí haverá o movimento de beneficiários, Antes disso, é pura utopia.

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Crescimento da Classe C (fonte: aqui).

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